16 setembro, 2011

Compadre Jodé mandou carta do ultramar!

CARTA D’AMOR (iscrita q’ando Jodé tava da trópa n’ultramar):
Minha nuiva crida du crassão: Iscrêvo-te éstas duas lêtras pa te d'zêr que tainho bastantes suidades tuas i que nã inxérgo ú dêa i óra dir pau pé de ti! Tamãe éra pa saber c'ma vás de çaúde, qanto a mim vua andando mêni mal! Inda ônte foi da infremaria daqui du qartel p'mêdo levar a injessão da febre amarela e tamãe já luvei contra o této, c’ma tu levaste antes deu vir praqui. Sabes caqui d'Angóla têm muintas duênças p'mêdo dui mesquites que mórdem bastante até xupar ú sangue das pessauas! Mei bãe, ú que se quér é q'eu nã fique impalamado, pa q'ando xegár daí abrassar a minha nuiva crida até nã puder mais dui brássos! Imentes não á guerra tainho pênçado bastante em ti. Nã sás du meu pênçamento, q’ai vezes até marcho da parada au incuntrário!. Mazé pênçando em ti q’auguento tar daqui do meio desta tropa touda. Úi meus culegas de camarata dizem que touda a nuite sounho alto cuntigo, que só digo o teu nome…, que tua apaixunádo prutui, que te qéro abrassar i beijar. Inda aquintrodêa tive um sounho cuntigo mai lindo, que se táva abrigados da xuva dentro du palheiro da Cova de Cima, incima da pailha i q'ando acurdei a metrilhadôra já tava descarregada i o sargênto mandua-me p'a cuzinha dui dêas de faxina de castigo. Mei nã fai mal, ú qintréça é a minha paixão desmaziada prutui i ispéro que çintas ú mêmo prumuim. Bãe, agóra vua te deixar que sei que tens tânta cuiza pa fazer, i nêste mês de Junho tau d’altura do trigo i déves andár no apanhando mazazoutras milhéres... mei fás cuidado cu ceifão qêles ai vêzes são malândros e agarram na mão dei raparigas. Adeus até à vólta du curreio, suidades pa toudos e pra ti minha crida amada. Bastantos abrássos i beijos dousses na tua cara mai linda até m'afugares d'amor i eu sentir ú teu crassão aos pulos junto dos teus peitos mai lindos.
Angola, Batalhão 1413, Junho 29 Jodé (teu pa sempre i nunca mais te larga da mão)